Já ouviu a do coronel da PM que foi pego pela Lei Seca e jura que
não tinha bebido álcool? Parece piada, mas não é. O coronel da reserva
Fernando Príncipe Martins dirigia tranquilamente seu Porsche (!), quando
foi parado por uma blitz da Lei Seca na Praça do Ó, na Barra da Tijuca.
Como se recusou a soprar o bafômetro, o coronel teve a carteira de
habilitação apreendida e foi multado também por estar sem cinto de
segurança. Ao jornal O GLOBO, o coronel Príncipe contou que não havia
bebido uma gota de álcool mas afirmou que não soprou o bafômetro porque
isso contraria a Constituição.
-- Sou contra ser obrigado a
produzir provas contra mim. A Lei Seca é uma leizinha que quer empurrar
as coisas, mesmo contrariando os preceitos constitucionais -- disse o
coronel Príncipe, que não deve ter sido tão legalista assim quando
comandou o Bope, cuja chefia deixou depois que agentes daquele batalhão
balearam moradores de Vigário Geral, ou quando comandou o 9º BPM (Rocha
Miranda), cuja cúpula deixou depois que agentes daquela unidade
participaram de tiroteio com bandidos, que resultou na morte do menino
Wesley, de 11 anos, dentro da sala de aula de um Ciep.
Embora de
fato não haja qualquer suspeita sobre a idoneidade moral do coronel, o
episódio revela uma série de contradições. Em primeiro lugar, o coronel
deveria ter mais respeito pelos colegas de farda que participavam da
operação e não chegar comportando-se no ultrapassado estilo "sabe com
quem está falando" e se recusar a soprar o bafômetro, como a maioria dos
cidadãos faz. Eu mesmo já fui parado duas vezes por blitzes da Lei Seca
e concordei em soprar o bafômetro, não apenas porque não havia bebido
como também porque apoio a Lei Seca, que já salvou incontável número de
vidas. Se há algum excesso nessa lei, vamos modificá-la no Congresso
nacional.
Dar uma de rebelde a essa altura da vida não combina nem
um pouco com alguém que passou a vida empregando a força para defender a
lei. Imagine quantas leis ridículas o coronel defendeu simplesmente
porque eram leis, feitas para sempre cumpridas. Pregar desobediência
civil não combina com um agente da lei. Mas tudo indica que o coronel
está tomado pelo espírito da juventude. Ao ser parado na blitz, ele
pilotava um Porsche zero quilômetro, que custa pelo menos R$ 500 mil ou
meio milhão de reais.
O coronel Príncipe tem direito de dirigir o
carro que quiser. Mas há de convir que ter um carro luxuoso desses não
combina nem um pouco com a situação salarial da grande maioria da tropa a
que ele ainda pertence, apesar de estar na reserva. Obviamente que não
foi com seus vencimentos, que não devem passar de R$ 10 mil mensais -- a
menos que ele seja um dos marajás da PM -- que ele conseguiu comprar um
dos objetos de desejo dos amantes de automóveis.
O próprio coronel Príncipe explicou como adquiriu o veículo: sua atividade como sócio de uma empresa de segurança privada.
-- É de lá que vem meu rendimento maior -- afirmou o coronel ao GLOBO.
E
está aí uma das grandes contradições da segurança pública hoje.
Oficiais da PM e delegados de polícia transformaram em bico a sua
atividade principal, pública, que é justamente a que lhes confere a
"autoridade", a matrícula, o distintivo e a arma, empregados no
exercício da atividade privada. Em outras palavras, a sociedade sustenta
a segurança privada feita por agentes públicos em detrimento da
segurança pública. Por mais dedicado que seja um agente ao serviço
público, ele sem dúvida vai ferir interesses públicos se der prioridade à
sua atividade privada.
Para entender melhor isso, vamos partir da
seguinte obviedade. Quanto pior estiver a segurança pública quem terá
mais lucro com isso, além dos próprios criminosos? Aqueles que vendem
segurança privada. Portanto, um agente público pode tratar com desleixo
seu trabalho até mesmo inconscientemente benificiando seu negócio
privado. Isso pode acontecer com qualquer área do serviço público. Mas é
mais flagrante na área de segurança. Por isso os bicos nunca foram
tolerados. Só que o poder público não conseguiu atualizar os salários de
seus agentes e relaxou, permitindo os bicos.
Agora relaxa mais um
pouco, permitindo que oficiais e delegados sejam sócios de 20% de
empresas de segurança. O que acontece é que eles podem ser os
verdadeiros donos, usando testas-de-ferro com 80% das ações.
Em
nome do interesse público, o bico na segurança deveria ser permitido
apenas aos servidores que não estivessem em cargo de chefia ou na cúpula
das carreiras. No caso de PMs, dependendo da atividade, é claro, quem
fizesse bico deveria usar farda porque assim também continuaria dando
sua contribuição à segurança da comunidade.
Para que a segurança
pública fosse feita com mais esmero por seus oficiais e delegados, o
ideal seria que eles só pudessem dar consultoria ou ter sua própria
firma depois que se aposentassem. Aí sim não haveria qualquer conflito
de interesse. Mas quem precisa de um coronel de pijama?
REPÓRTER DE CRIME
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